O Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian encheu-se na noite de domingo para a Grande Final do Cascais Ópera 2026. Dez dias depois do início de um concurso que começou com 499 candidaturas de 59 países, oito vozes subiram ao palco que pode mudar uma carreira, acompanhadas pela Orquestra Sinfónica de Cascais, sob a direção do maestro António Pirolli, e apresentadas pela musicóloga Inês Thomas Almeida.
A abertura foi da responsabilidade da orquestra, com a abertura de La Gazza Ladra de Rossini, composta quando o compositor tinha apenas 23 anos. Uma entrada enérgica, afirmativa, que preparou a sala para o que estava para vir.
A primeira metade: traições, amores e liberdade
Arianna Manganello, mezzo-soprano italiana da Deutsche Oper Berlin, abriu as apresentações dos finalistas. Primeiro com o “Ah chi mi dice mai” do Don Giovanni de Mozart – a ária em que Dona Elvira, acabada de descobrir que foi traída, procura o sedutor para lhe pedir contas. Depois, com a famosíssima ária das cartas de Werther de Massenet, em que Charlotte, na noite de Natal, relê as cartas de amor de Werther entre a melancolia e as doces memórias, terminando com a ameaça de um amor impossível. Como descreveu Inês Thomas Almeida, é uma das cenas mais carregadas de sentimento de todo o repertório de mezzo.
Seguiu-se Beatriz Maia, a única portuguesa em competição. A sua primeira ária foi o “Gualtier Maldé… Caro nome” do Rigoletto de Verdi – a jovem Gilda a idealizar de forma sonhadora e cristalina a figura do homem misterioso com quem se encontra às escondidas, sem saber que é o arrogante Duque de Mântua. A segunda, o “Salut à la France” de La Fille du Régiment de Donizetti – a jovem Marie que descobre as suas origens e, no mesmo momento, pode finalmente casar com o homem que ama, numa ária de fervor patriótico que valeu a Donizetti o epíteto de melhor compositor italiano em Paris.
Seonwoo Lee levou o público para o mundo das cortesãs. Primeiro com o “Je marche sur tous les chemins” da Manon de Massenet – Manon que, no auge da vida mundana, celebra a sua própria beleza e lembra que a juventude não durará para sempre, pelo que o tempo de amar é agora. Depois com o “È strano!… Sempre libera” da Traviata de Verdi, em que Violetta Valéry exalta a liberdade de ser e amar quem quiser, mesmo que esse caminho se revele trágico.
Junyoung Choi fechou a primeira metade com dois Verdi que são também dois mundos. O “Hai già vinta la causa” das Nozze di Figaro de Mozart – o Conde Almaviva a perceber que está a ser ludibriado, numa ópera em que, como sublinhou Inês Thomas Almeida, Mozart e Da Ponte fazem algo extraordinário: dar uma visão do tempo. No fim do século XVIII, são os criados e as pessoas comuns que levam a melhor sobre os aristocratas, sendo que a ópera estreou em Viena apenas três anos antes da Revolução Francesa. Depois, o “È sogno? o realtà?” do Falstaff de Verdi, uma comédia que exige uma maturidade vocal e dramática raras.
O Intermezzo dos Pagliacci de Leoncavallo dividiu as duas metades da noite – um dos momentos mais famosos de todo o verismo italiano, que oscila entre o misterioso e o expectante e as linhas melódicas intensas de um drama apaixonado.
A segunda metade: Beethoven, Puccini, Mozart, Tchaikovsky e Wagner
WuTongyu abriu a segunda parte com o Fidelio de Beethoven – a única ópera do grande mestre germânico, onde ressoam as ideias de liberdade, igualdade e fraternidade. A ária “O wär ich schon mit dir vereint” pertence à jovem Marzelline que, ignorando que Fidelio é Leonora disfarçada de homem, se apaixona e canta cheia de ilusões sobre a felicidade de estarem ambos unidos pelo amor. De seguida, o “Sì, mi chiamano Mimì” da Bohème de Puccini – a jovem Mimì que acabou de conhecer o poeta Rodolfo e conta a sua história humilde, mas de uma poesia e musicalidade intensas que Puccini constrói “como um elixir inebriante”, nas palavras de Inês Thomas Almeida.
Nuri Park apresentou dois momentos de grande virtuosismo. O “Chacun le sait” de La Fille du Régiment de Donizetti – Marie a exaltar as qualidades do 21.º Batalhão de Infantaria – e depois o “Ei parte… Per pietà” do Così fan tutte de Mozart, em que Fiordiligi, dividida entre o amor pelo noivo e o sentimento nascente por outro homem, decide manter-se fiel numa ária de carga dramática intensa, com grandes saltos entre o agudo e o grave, que serviria mais tarde de modelo a Beethoven para criar as árias de Leonora no Fidelio.
Tomislav Jukić levou o público para a Rússia e de lá para Paris. O “Kuda, kuda” do Eugene Onegin de Tchaikovsky – o jovem poeta Lenski a refletir amargamente sobre a vida e a perguntar-se para onde foram as horas felizes – seguido do “Che gelida manina” da Bohème de Puccini, a ária em que Rodolfo pega na mão fria de Mimì e lhe conta quem é, construída com uma imaginação melódica de uma riqueza extraordinária.
Ljubomir Milanović fechou as apresentações individuais com dois mundos opostos. Primeiro Wagner – o “O du mein holder Abendstern” do Tannhäuser, em que Wolfram, acabado de intuir a morte de Elisabeth a quem amava secretamente, pede à estrela vespertina que a recolha e proteja: uma das páginas mais sublimes de todo o repertório barítono. Depois, o regresso a Mozart e ao Don Giovanni – o “Finch’han dal vino”, em que o sedutor encarrega Leporello de preparar uma grande festa com vinho, danças e convites a todas as raparigas que encontrar, pois planeia acrescentar pelo menos mais dez beldades à sua já longa lista.
O final, os prémios e os vencedores
Terminadas as apresentações individuais, os oito finalistas regressaram juntos ao palco para o encerramento – o Champagne Chorus de Die Fledermaus de Strauss II, o mesmo número que já tinha fechado o Concerto de Abertura e o Concerto de Semifinalistas desta edição. Uma imagem de festa e cumplicidade que fechou o círculo desta final.
O júri retirou-se para deliberar. O público – tanto na sala como em todo o mundo – votou no seu favorito. E às 21h15, a cerimónia de entrega de prémios, com mais de 55 mil euros em prémios e contratos a serem distribuídos começou.
Em dez dias, o Cascais Ópera 2026 trouxe a Cascais 39 candidatos que realizaram provas presenciais, masterclasses com alguns dos mais reputados especialistas da ópera europeia, um concerto de semifinalistas no Palácio da Cidadela de Cascais e uma final na Gulbenkian. Termina como começou: com a convicção de que há vozes novas no mundo, e que algumas delas passaram por aqui.