Raphaël de Gubernatis, crítico, ex-Nouvel Observateur, Causeur
Raphaël de Gubernatis passou mais de quatro décadas a escrever sobre artes do espetáculo – dança, ópera, teatro lírico – para publicações como o Nouvel Observateur e o Causeur. Quando fala do que procura num cantor, não começa pela voz. Começa pelo corpo.
“O que me interessa mais no fim não é apenas as vozes, mas a atitude de um cantor, o seu trabalho teatral”, diz. “Estou aqui também para ver como os principiantes se apresentam em cena, como já exprimem as suas emoções como artistas. Ser um bom ator ao lado do trabalho de cantor parece-me uma coisa muito importante”.
O que separa uns dos outros
Num concurso em que o tempo é escasso e cada cantor tem apenas alguns minutos para deixar uma marca, RaphaëlDe Gubernatis identifica com precisão o que faz a diferença. “Para além da voz, é a qualidade da presença em cena. E isso nota-se na qualidade dos gestos, a autenticidade, a sinceridade dos gestos. Na cara, nos olhos”.
E acrescenta algo que não admite matizes: “Uma voz sem presença teatral não me interessa”. Não é uma preferência estética – é uma convicção sobre o que a ópera é e deve ser. “Nota-se imediatamente se uma pessoa pode ser uma autêntica presença de ator em cena ou se apenas será uma voz”. A distinção, diz, é percetível desde o primeiro momento.
O Cascais Ópera como modelo
O que lhe encanta no Cascais Ópera é algo específico: o trabalho coletivo. O Concerto de Semifinalistas – em que doze cantores que mal se conheciam prepararam juntos um programa de Mozart – pareceu-lhe exemplar. “Encantou-me muito porque era já um trabalho em comum”.
E valoriza, acima de tudo, que o concurso não seja uma eliminação dura. “Não é uma maneira tão dura de eliminar os que não tiveram os primeiros prémios. É respeitar o seu trabalho também e dar-lhes uma força nova para continuar o seu trabalho no teatro”. Um concurso que entende que o caminho é mais longo do que o resultado de uma tarde.