Uma semana. Trinta e nove cantores de vinte e cinco países. Centenas de horas de música, de ensaios, de masterclasses, de nervos e de alegria partilhada. Tudo convergiu para esta noite. Às 18h00, o Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian abre as suas portas para a Final do Cascais Ópera 2026… e oito vozes sobem ao palco que pode mudar uma carreira.
O programa está definido. A Orquestra Sinfónica de Cascais, sob a direção do maestro Antonio Pirolli, acompanha cada um dos finalistas em duas árias do seu repertório. Rossini abre a noite com a abertura de La Gazza Ladra – um prelúdio que é, por si só, uma declaração de energia e de intenção. O Intermezzo dos Pagliacci de Leoncavallo divide o concerto ao meio, separando o antes do depois.
Oito finalistas, dezasseis árias
Arianna Manganello, mezzo-soprano italiana da Deutsche Oper Berlin, abre com Mozart – o “Ah chi mi dice mai” do Don Giovanni – e fecha com Massenet, numa cena do Werther que é um dos momentos mais dramáticos do repertório de mezzo.
Beatriz Maia, a única portuguesa em competição, tem ao seu lado dois dos papéis que melhor lhe assentam: a Gilda do Rigoletto de Verdi, com a celebrada ária “Caro nome”, e Marie da Filha do Regimento de Donizetti, um papel que já interpretou em palco e que exige tanto de coloratura como de presença cénica.
Seonwoo Lee, soprano sul-coreana que passou pelo Opernstudio da Bayerische Staatsoper, apresenta uma Manon de Massenet e a Violetta da Traviata de Verdi – “È strano!… Sempre libera”, a ária da libertação e da ambiguidade, uma das mais exigentes do repertório soprano.
Junyoung Choi, barítono sul-coreano, escolheu dois Verdi: o Conde das Bodas de Fígaro e o Falstaff – um papel que tem no horizonte e que exige uma maturidade vocal e dramática raramente encontrada num cantor de 29 anos.
Wu Tongyu, a mais jovem finalista com apenas 23 anos, traz Beethoven – “O wär ich schon mit dir vereint” do Fidelio – e Puccini, com o “Sì, mi chiamano Mimì” da Bohème, um dos momentos mais amados do repertório soprano.
Nuri Park, soprano sul-coreana formada em Viena, apresenta a Marie de Donizetti e o “Per pietà” do Così fan tutte de Mozart – uma ária de rara beleza e dificuldade técnica que exige tanto o controlo do fiato como a expressão do desespero.
Tomislav Jukić, tenor croata do International Opera Studio de Zurique, leva o Lenski do Onegin de Tchaikovsky e o Rodolfo da Bohème – duas das árias mais famosas do repertório tenor, em idiomas e mundos completamente diferentes.
E Ljubomir Milanović, o barítono sérvio de 26 anos que estuda em Mannheim, fecha o ciclo com Wagner – o “Abendstern” do Tannhäuser, uma das páginas mais sublimes do baritono wagneriano – e com o Champanhe do Don Giovanni, o mesmo vilão que percorre toda esta noite.
Uma conversa sobre o futuro da ópera
Entre o concerto e a cerimónia de entrega de prémios, há um momento que vai além da competição. Moderada por Hugo van der Ding, a conversa “Um dia havemos de ir todos à Ópera” subordinada ao tema – Sem Mecenas não há Traviata – reúne mecenas e parceiros do Cascais Ópera para falar de algo que raramente se discute em voz alta: sem apoio, não há ópera. Sem mecenas, não há Traviata. O Embaixador António Monteiro, da Fundação Millennium bcp, José Pena do Amaral, da BPI Fundação La Caixa, e Jorge Leitão, da Leitão & Irmão Joalheiros, partilham a mesa numa conversa sobre o que significa apoiar a cultura, e porque é que isso importa.
A cerimónia e o que fica
Às 21h15, a cerimónia de entrega de prémios. O júri – presidido por Sergei Leiferkus e composto por alguns dos mais reputados profissionais da ópera internacional – terá deliberado durante a hora de intervalo. Os prémios serão entregues. Os nomes serão ditos. E a terceira edição do Cascais Ópera terá o seu desfecho formal.
Mas há algo que não termina esta noite. As carreiras que começaram aqui, ou que deram um passo importante aqui, continuam. As relações que se construíram durante esta semana entre cantores, mentores e profissionais do setor continuam. E o Cascais Ópera, que em três edições passou de uma ideia a uma referência internacional, continua.
Esta noite, na Gulbenkian, ouvimos oito vozes. Daqui a dez anos, algumas delas vão estar nos maiores palcos do mundo. E alguém vai lembrar-se de que as ouviu pela primeira vez em Cascais.