Catarina Sereno, mezzo-soprano e membro do júri do Cascais Ópera 2026
Catarina Sereno é a única portuguesa no júri desta edição do Cascais Ópera. Mezzo-soprano belgo-portuguesa formada na Guildhall School of Music and Drama, vive fora de Portugal há quase vinte anos, e foi com emoção particular que regressou a Cascais, desta vez para o outro lado da sala.
“É fantástico estar de volta ao país, sobretudo para uma experiência como esta”, diz. “O Cascais Ópera ganhou uma amplitude enorme em três anos e estou muito feliz por fazer parte desta viagem”. Esta é a sua primeira vez num júri presencial, nas edições anteriores tinha participado no júri de seleção, a avaliar candidaturas em vídeo. A diferença, diz, é enorme.
Ao vivo, não há truques
“Recebemos vídeos muito diferentes – uns são feitos em casa com o iPad, outros são feitos em salas alugadas, editados. Há uma discrepância na qualidade de vídeos enorme”. Ao vivo, tudo isso desaparece. “Não há truques, não há edição. É igual para todos. É o vivo e a cor. A voz tem de soar, a técnica tem de se mostrar, a personagem tem que vir através”.
Catarina Sereno reconhece que o facto de ter estado do outro lado há relativamente pouco tempo – a fazer provas, a concorrer, a receber respostas – a coloca numa posição particular no júri. Mais próxima dos candidatos, talvez. Mais aberta, também, ao repertório contemporâneo que alguns apresentaram. “Ajuda-me a estar um pouco mais aberta, mais ligada, mais interessada nesse repertório também”.
Um não não é o fim
Para os candidatos que não avançam, Catarina Sereno tem uma perspetiva direta e generosa ao mesmo tempo. “Um cantor vai, ao longo da vida, vai receber muitos nãos. Faz parte. Não podemos fazer esta carreira sem receber nãos”. Mas – e aqui cita Sergei Leiferkus – “significa tudo e não significa nada”. É uma fotografia num momento da vida do cantor. Para o ano, tudo pode ser diferente.
O que distingue o Cascais Ópera, diz, é precisamente o que acontece a seguir a esse não: as masterclasses, a oportunidade de trabalhar o mesmo repertório com olhos frescos, de receber feedback menos a quente. “O que é que podemos trabalhar mais para a próxima vez? Sobretudo, o Cascais Ópera faz uma coisa que não existia no meu tempo: oferece masterclasses àqueles que não passaram”.
Enjoy the ride
O que gostaria que os cantores levassem de Cascais? Pensa um momento, muda de língua sem querer – “enjoy the ride”, diz, a rir -, e depois recomeça em português. “Que desfrutem da viagem e da experiência de uma forma positiva”. E para quem está a começar: “Que invistam, porque é uma carreira que não se faz a 50%. Que se invistam a 100 ou a 200. Mas também que tomem gosto na caminhada. Nunca ver as coisas de forma negativa e continuar sempre para a frente”.