Entre o fim do concerto e o anúncio dos vencedores, o Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian acolheu uma conversa que raramente acontece em voz alta: para que serve o mecenato cultural? Quem o faz, porque o faz, e o que ficaria por fazer se não o fizesse? Moderada por Hugo van der Ding, a talk “Um dia havemos de ir todos à Ópera” reuniu três personalidades com percursos e motivações distintas – o Embaixador António Monteiro, pela Fundação Millennium bcp, José Pena do Amaral, pela Fundação BPI La Caixa, e Jorge Leitão, da Leitão & Irmão Joalheiros. O que uniu os três foi, afinal, algo muito simples: a emoção.
A conversa começou onde começa tudo, na infância. O Embaixador António Monteiro lembrou a sua primeira ópera, não no São Carlos, mas num Coliseu, um Un ballo in maschera de Verdi com um tenor que, confessou, era “muito mal aceitável”. José Pena do Amaral disse não se lembrar da primeira vez que foi ao São Carlos – ia desde os oito anos -, mas que a sua entrada “mais a sério” na ópera veio por via de Wagner, ouvido no carro, em Bruxelas, através de um amigo embaixador. “Entrei de uma maneira mais difícil”, disse, “e ainda hoje tenho isso completamente na memória”.
Jorge Leitão tem uma relação com a ópera que começa antes de alguma vez ter ido ao teatro. A sua mãe, nascida em Berlim, ia todos os anos à ópera, e deixava-o em casa. “Ficava sem mãe por causa da ópera”, contou. Uma ausência que se tornou, talvez precisamente por isso, numa presença permanente.
A ópera como linguagem universal
Quando o moderador perguntou o que torna a ópera especial, as respostas foram diferentes, mas convergentes. Para António Monteiro, é pura emoção: “ainda hoje quase que vêm lágrimas”. Contou um episódio que ficou na memória: durante a guerra no Afeganistão, em dezembro de 1992, sitiado num hotel em Kandahar enquanto os tiros passavam pela janela, foi às árias do Concerto da Cecília Bartoli que recorreu. “Durante os três dias de guerra, ouvia o Concerto ao máximo. Não havia tiros, não havia nada. Havia as árias do Concerto”.
Para Jorge Leitão, a chave está na ausência de fronteiras. “A arte tem esta qualidade única de não ter boundaries”, disse, recorrendo ao inglês para uma palavra que, admitiu, não tem tradução exata em português: uma mistura de fronteira e obstáculo. “A ópera é entendida em emoção. Nenhum de nós percebeu todas as línguas em que a ópera foi cantada, e ainda assim a emoção do artista passa para cada um de nós”.
José Pena do Amaral foi o mais direto: a ópera não é o seu principal interesse nas artes, e disse-o sem hesitação. “Mas a voz humana é o instrumento mais fantástico”, acrescentou. E o espetáculo de ópera, com tudo o que convoca – música, canto, cena -, é “muito apelativo do ponto de vista emocional”.
Porque se apoia
A segunda parte da conversa entrou no território mais concreto do mecenato. Para José Pena do Amaral, o ponto de partida é filosófico: a Fundação BPI La Caixa existe para “retribuir”, e manteve esse compromisso mesmo nos momentos mais difíceis. “Mesmo numa fase em que o banco teve prejuízos, na última crise financeira, nunca interrompemos esse apoio, nem o reduzimos.” O que importa, no fim, é o artista. “É isso que está no centro, é isso que queremos, em última análise, apoiar”.
Para Jorge Leitão, a lógica é a mesma, expressa de forma diferente. A Casa Leitão & Irmão existe há mais de um século porque os seus clientes escolhem excelência. Apoiar o Cascais Ópera é, nesse sentido, um ato de coerência. “É uma retribuição daquilo que já recebemos”. E há algo neste concurso que o toca de forma particular: não estamos a ver o grande artista formado, estamos a ver o caminho. “Estamos a ver algo que é raro: o caminho de alguém que poderá vir a ser um grande artista. E esse caminho, que é o lado humano das coisas, é apaixonante”.
O Embaixador António Monteiro falou do historial da Fundação Millennium bcp no apoio à cultura: do São Carlos ao Festival Olavo, do Convento de Santa Clara no Porto ao Santuário dos Remédios. E lançou um apelo que ficou no ar: para que o mecenato cultural funcione verdadeiramente, é preciso uma conjugação de esforços entre fundações e Estado. “É a única maneira de aproveitarmos as mais-valias e fazermos crescer o bolo que nunca chegou, nem nunca chegará”.
O ecossistema que sustenta a arte
José Pena do Amaral usou uma palavra que admitiu não gostar, “porque se usa para tudo”, mas que neste caso considerou exata: ecossistema. O Cascais Ópera é um bom exemplo disso: há os artistas, há a obra, mas há também quem tome a iniciativa de fazer. “Se não houver estas pessoas, não acontece. E, portanto, gostava de valorizar”.
Jorge Leitão fechou com a nota certa: “O mundo está carregado de boas ideias. E há muito pouca gente que as concretize. O Cascais Ópera é uma boa ideia e está bem concretizado”.
Do Auditório 3, os três mecenas foram juntar-se ao público do Grande Auditório para ouvir os resultados. Tinham acabado de falar sobre porque vale a pena apoiar. Estavam prestes a ver porque vale a pena acreditar.