Alexandra Maurício, Co-fundadora e Diretora Geral do Cascais Ópera
Alexandra Maurício fala do Cascais Ópera com a energia de quem está no meio de algo que está a crescer mais depressa do que esperava – e que sabe exatamente para onde quer levá-la. Em três anos, o concurso passou de 270 candidaturas para 499, de uma ideia local para uma referência internacional. Mas o que a motiva, diz, não é o número. É o impacto.
“Não vale a pena pensar que tenho um projeto com uma grande ambição internacional, se não tiver os meus parceiros locais do meu lado envolvidos e a sentirem que fazem parte do projeto”, afirma, acrescentando que “trabalhar com arte e cultura é, sobretudo, impactar na formação e na vida das pessoas”.
O impacto começa em casa
A dimensão local do Cascais Ópera vai muito além do concurso em si. Fornecedores locais, alojamento local, restauração da zona de Cascais e Estoril – tudo pensado para que o projeto sirva também a economia do território. Mas há uma iniciativa que Alexandra Maurício conta com particular satisfação: a parceria com as IPSS.
“Começámos a trabalhar com o Centro Paroquial do Estoril e com a Associação Gaivotas da Torre”, explica. “Lançámos um desafio: usem os nossos materiais de comunicação – lanyards, totebags, postais – e dêem-lhes nova vida”. Uma lógica de economia circular que tem uma dimensão mais profunda do que o reaproveitamento de materiais. “Abrimos as portas a uma comunidade que normalmente acha que a ópera não é para eles”. Algumas das senhoras que participaram, conta, nunca tinham visitado o São Carlos. O Cascais Ópera abriu essa porta.
Portugal no mapa da ópera mundial
A nível nacional, Alexandra Maurício é clara: Portugal tem massa crítica para muito mais do que um teatro nacional de ópera. “É a arte mais completa – convoca o canto, a dança, o teatro, as novas tecnologias, as artes e ciências, para além de toda a música. Temos grandes artistas, grandes músicos. A prova é que voltamos a ter este ano uma cantora portuguesa na final”.
A rede de parcerias nacionais é já extensa – Festival de Música de Marvão, Ópera na Cidade e na Academia no Porto, Festival de Ópera de Óbidos, Festival de Música de Mafra, entre outros. “É disto que se fazem as parcerias nacionais. É potenciarmos o que temos e irmos aprendendo uns com os outros”.
A nível internacional, os números falam por si – 499 candidaturas de 59 países na terceira edição – mas o que Alexandra Maurício valoriza mais são as redes que se constroem. A integração na OLA -Opera Latinoamérica, da qual o Cascais Ópera foi a primeira organização portuguesa a fazer parte. A entrada na World Federation of International Music Competitions com apenas dois anos de existência. A parceria com o Festival de Ópera de Manaus que levou um finalista sul-coreano a um mês de residência no Brasil.
E depois há os pequenos sinais que dizem que está a funcionar. Os questionários de opinião criados para o público das primeiras provas – onde cada espectador é convidado a ser ele próprio o júri – que grandes diretores de casas de ópera internacionais pediram para levar para as suas instituições. “Estamos, com três anos de existência, a ter aqui algumas ideias que podem ser inspiradoras para outros”.
“Estávamos numa reunião em Valência”, conta, “e ouvi-os a dizer: ah, estão aí os de Cascais”. Faz uma pausa. “É bom. Estamos a levar Portugal pelas melhores razões e da melhor forma internacionalmente”.