Hugh Canning, crítico, ex-Sunday Times, fundador do Operalogue
Hugh Canning escreve sobre ópera há quase cinco décadas. Assistiu ao seu primeiro concurso na Finlândia em 1981 – o Concurso Miriam Helin – e desde então acompanhou cantores, carreiras e competições em todo o mundo. Quando chegou ao Cascais Ópera, trouxe a perspetiva acumulada de quem já viu quase tudo o que a ópera tem para oferecer. E ainda assim ficou surpreendido.
“Fiquei muito impressionado com o nível dos semifinalistas que ouvi, que naturalmente não irão cantar na final. Havia pelo menos três cantores que penso que irão definitivamente ter carreiras bastante importantes. O talento está definitivamente lá e está à espera de ser descoberto”.
O que torna um cantor digno de ser escrito
Como crítico, Canning aborda um concurso de forma diferente de um membro do júri ou de um agente. Não avalia para contratar nem para dar um prémio, avalia para escrever. E o que move a sua caneta é, em última análise, a esperança da descoberta. “Estamos sempre à espera de encontrar uma nova Victoria de los Ángeles, uma Mirella Freni, uma Renata Scotto ou um Pavarotti. Essas vozes são sempre muito raras. Mas vive-se sempre na esperança, e esses talentos importantes aparecem”.
O que o mantém envolvido, depois de todas estas décadas, é a enorme variedade da arte. “A ópera tem um repertório tão vasto – inglês, italiano, francês, alemão, barroco, romântico, moderno. Isso significa que há cantores que se podem especializar em estilos diferentes e trazer algo novo. É isso que é apaixonante: descobrir sempre pessoas novas”.
Otimismo, acessibilidade e uma cidade redescoberta
Sobre o futuro da ópera, HughCanning é cautelosamente otimista. “Acho que a ópera ao mais alto nível terá sempre público. Mas tem de ser acessível para os jovens. Se não trouxermos jovens, o público morrerá”. Vê a diversificação dos formatos – de produções intimistas a transmissões em cinema e streaming – como um sinal positivo. “A ópera está mais diversificada agora do que quando comecei a escrever sobre ela há 45 ou 50 anos”.
E depois houve a visita ao Núcleo Arqueológico – o museu escondido debaixo de um banco em Lisboa – que se tornou, inesperadamente, um dos momentos altos da viagem. “Foi muito emocionante. Parece uma rua normal e não há nenhum sinal que diga que ali há um museu. E foi fascinante descer e ver as fundações romanas, onde faziam garum, recuando a uma época anterior ao famoso terramoto de Lisboa”. Não sabia, antes desta visita, quão antiga era a cidade. Quer voltar.