Uma masterclass não é uma aula. É um encontro. É o momento em que um jovem artista se senta em frente a alguém que percorreu o caminho – os grandes palcos, as grandes carreiras, os grandes erros e as grandes descobertas – e recebe aquilo que os livros e os conservatórios raramente conseguem dar: a experiência transmitida em primeira pessoa.
No Cascais Ópera, as masterclasses não são um complemento ao concurso. São parte integrante da sua missão. Porque o projeto foi sempre concebido como uma plataforma – não apenas para quem chega à final, mas para todos os que passaram por Cascais esta semana.
Hoje, quarta-feira, esse trabalho continua, com os candidatos que vão subir amanhã ao palco do Palácio da Cidadela para o Concerto de Semifinalistas a terem uma preparação especializada – um último encontro com os mentores antes de um concerto que é, por si só, uma oportunidade única de ser ouvido por um público exigente.
Um novo olhar: Aleksandar Nikolić
O mentor que hoje se estreia no Cascais Ópera é Aleksandar Nikolić, encenador sérvio nascido em Kruševac em 1983 e um dos mais ativos criadores de ópera da Europa de Leste. A sua masterclasse tem um foco específico: preparar os cantores para o Concerto de Semifinalistas de amanhã, trabalhando o repertório que vão apresentar e desenvolvendo a dimensão performativa de cada interpretação.
O percurso de Nikolić é singular. Começou no mundo lírico como pianista e cenógrafo no Teatro Nacional de Belgrado, acumulando depois funções de encenador, professor e dramaturgo. Estudou Drama e Artes Audiovisuais, História da Arte e Cenografia, e aprofundou a sua formação em Brescia, Hannover e Salónica. Entre 2019 e 2023 foi diretor de Ópera Principal do Pequeno Teatro Dushko Radovic, em Belgrado, onde levou à cena 22 produções. Em 2016, foi assistente de encenação na Royal Opera House de Covent Garden, na produção de La Traviata dirigida por Richard Eyre.
O que traz às masterclasses é uma perspetiva dupla – a de quem entende a música por dentro e a de quem sabe o que acontece quando um cantor entra em palco. As suas sessões centram-se na interpretação musical e textual do repertório italiano e francês e têm como objetivo preparar os artistas não apenas para cantar bem, mas para habitar o palco com verdade e presença.
Os mentores que regressam
A seu lado, regressam hoje mentores que já trabalharam com os candidatos ao longo desta semana – cada um com um olhar diferente, cada um com um contributo específico.
Liliana Bizineche, professora na Universidade de Évora e vencedora de prémios em dez concursos internacionais, trabalha com os semifinalistas, numa sessão de canto com mais tempo e mais profundidade do que as primeiras masterclasses permitiram – 50 minutos por cantor, um espaço para aprofundar o que ficou por dizer.
María Bayo, soprano espanhola com mais de 70 papéis no repertório e uma das vozes ibéricas de maior projeção internacional, faz o mesmo no Museu Condes de Castro Guimarães – um espaço que, como a Casa das Histórias Paula Rego onde trabalhou nos últimos dias, convida a uma escuta mais íntima e mais atenta.
Sergei Leiferkus – barítono, cofundador do Cascais Ópera e um dos grandes nomes da lírica mundial – regressa também ao Museu Condes de Castro Guimarães para mais sessões de canto com semifinalistas. O mesmo Leiferkus que anunciou os semifinalistas, está hoje a lecionar e …
E Juliane Banse, que falou do canto como “um microcosmos” e da importância de transformar a frustração em aprendizagem, está de regresso ao Centro Cultural de Cascais para mais uma tarde de trabalho com semifinalistas.
O concerto de amanhã como destino
Para muitos dos cantores que trabalham hoje com Aleksandar Nikolić e os restantes mentores, amanhã será um dia especial. O Concerto de Semifinalistas, que tem lugar no Palácio da Cidadela de Cascais, reúne os doze semifinalistas, numa noite dedicada a Mozart – uma homenagem aos 270 anos do seu nascimento.
É uma oportunidade rara. Cantar na residência oficial de verão do presidente da república de Portugal, com a preparação de uma semana intensa, e com o olhar atento de membros do júri e de profissionais do setor que, como Colin Brush recordou esta semana, vêm a estes concursos também à procura de vozes para os seus programas e instituições.
As masterclasses de hoje são, em parte, a preparação para esse momento. Uma última conversa com quem sabe. Um último ajuste antes de o palco falar por si.
As vozes continuam.