María Bayo, soprano e membro do júri do Cascais Ópera 2026
María Bayo sabe o que é estar do outro lado. Antes de ser a voz que julga, foi a voz que concorreu… e ganhou. O Concurso Belvedere de Viena foi o ponto de partida de uma carreira que a levou à Scala, ao Met, à Ópera de Paris e ao Festival de Salzburgo. Hoje, sentada no júri do Cascais Ópera, traz consigo tudo isso: a exigência de quem percorreu o caminho e a empatia de quem sabe o que custa estar ali.
“Quando comecei a minha carreira também tive de me apresentar perante um júri exigente”, recorda. “Implica que já tens uma grande preparação técnica e psicológica para enfrentarmos esse júri”. E é com essa memória que ouve cada candidato, não apenas como avaliadora, mas como alguém que entende o que está em jogo do lado de lá.
Técnica e transmissão: as duas faces da mesma moeda
Para Bayo, a técnica não é um fim em si mesma, é o que torna possível tudo o resto. “O que procuro num candidato é uma pessoa que transmita tudo o que é como artista. Mas isso exige ter uma técnica. Para mim, a técnica é uma das bases principais de uma carreira”.
A separação entre os dois elementos – o técnico e o artístico – é, segundo María Bayo, um erro frequente. “Se não tens uma técnica sólida, ou uma técnica que está em construção, às vezes também não consegues ver o artista”. A mensagem é clara: não se trata de escolher entre voz e expressão. Trata-se de perceber que uma precisa da outra para existir verdadeiramente.
Há também, diz, a questão da resistência ao longo das provas. “A cada fase, o repertório vai ficando mais exigente. Há que saber equilibrar muito bem tudo para que vocalmente possas ter um bom resultado”. Um concurso não é apenas um momento, é uma maratona que vai testando a voz em condições de crescente pressão.
Uma carreira construída em vários idiomas
O percurso de Bayo é, em si mesmo, uma lição de versatilidade. Depois dos estudos no Conservatório de Pamplona, partiu para cinco anos de formação na Alemanha, não por obrigação, mas por curiosidade. “Interessava-me muito a parte liedística, o mundo centro-europeu. Quis especializar-me e aprofundar toda essa música”.
Foi precisamente nesse período que ganhou o Concurso Belvedere, o que considera o início real da sua carreira internacional. “Nunca pensei que ia ganhar. Havia não sei quantos participantes e nunca pensei que ia passar à final”. A surpresa desse momento ficou com ela, e talvez explique a atenção com que hoje ouve os candidatos mais jovens.
Ao longo da carreira, manteve sempre um fio condutor: a música espanhola. “Fui sempre uma embaixadora da canção espanhola. Há que continuar a apoiá-la, como os grandes intérpretes que tivemos antes de nós”. Cita Teresa Berganza como exemplo de alguém que nunca abandonou a música de câmara, e que, por isso, se tornou uma artista completa. “O Lied aporta à ópera e a ópera aporta ao Lied”.
As masterclasses como segunda oportunidade
No Cascais Ópera, María Bayo não ficou apenas do lado do júri, participou também nas masterclasses para os candidatos que não avançaram na competição. E sobre isso, é entusiasta. “Vir apenas ao concurso e ficar com o resultado… para eles é um pouco frustrante. A possibilidade de que alguém do júri, com uma trajetória artística, possa depois dar-lhes um contributo, mostrar onde falharam ou onde podem melhorar… eu acho que é fenomenal”.
Não é uma prática comum, reconhece. “Não assisti a muitos concursos que façam isto”. E é exatamente por isso que valoriza a iniciativa do Cascais Ópera. Por ir além do resultado e tratar o concurso como uma plataforma de desenvolvimento e não apenas de seleção.
A formação nunca termina
María Bayo é diretora do Centro de Perfeccionamiento del Palau de les Arts em Valência, e fala da docência com a seriedade de quem a leva a sério. “Formar um futuro artista é uma grande responsabilidade.” Admite que os jovens de hoje são por vezes céticos quando recebem críticas, “com tantos meios de comunicação, têm tanta informação”, mas a experiência diz-lhe que a resistência inicial cede. “No segundo ano, há uma evolução porque percebem que tem consequências… e consequências positivas.”
A mensagem final que deixa aos candidatos do Cascais Ópera é simples na forma, exigente no conteúdo: “É trabalho, trabalho, trabalho contínuo. É uma carreira complicada, difícil, mas que dá muitas satisfações. Tens de ter uma grande vocação. E saber que não é de um dia para o outro, é uma evolução lenta, porque a arte em si não é imediata”. E cita a sua professora: “99% é o trabalho contínuo que fazes com a formação de cada dia”.