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Mozart na Cidadela: uma noite de liberdade

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Há concertos que acontecem em salas de concerto. E há concertos que acontecem em lugares. O Concerto de Semifinalistas do Cascais Ópera 2026 pertence claramente à segunda categoria. Numa noite de início de junho, o Palácio da Cidadela de Cascais – residência de verão do Presidente da República, com séculos de história gravados nas suas paredes – acolheu doze vozes jovens numa homenagem intimista a Wolfgang Amadeus Mozart, no ano em que se celebram os 270 anos do seu nascimento.

A escolha do local não foi acidental. Cantar naquele espaço é cantar num sítio que já ouviu reis e presidentes, que guarda memórias da Casa Real portuguesa e de chefes de Estado de todo o mundo. E é cantar, ao mesmo tempo, num ambiente de rara proximidade com o público – sem a distância dos grandes auditórios, sem a formalidade das salas de ópera tradicionais. Uma intimidade que, nesta noite, se revelou o cenário perfeito para o que se passou.

Sergei Leiferkus, Presidente do Júri e Adriano Jordão, Diretor Artístico. Concerto Semifinalistas. Imagem:Miguel Ribeiro Fernandes

Cantar em liberdade

Adriano Jordão, diretor artístico do Cascais Ópera, colocou as palavras certas antes do início: estes doze semifinalistas ensaiaram apenas no dia anterior, vieram dos quatro cantos do mundo, não se conheciam. E ainda assim, montaram um programa de ópera com uma alegria que, nas suas palavras, raramente tinha visto. “Pessoas a festejar, com tanta alegria, o facto de não terem passado”, disse. Porque aqui, sem o peso do júri, sem a pressão da competição, cantaram em liberdade – para o público, para si próprios, e para Mozart.

Sergei Leiferkus completou o pensamento: “Mozart é como um livro de escola para todos os músicos. Pode-se dizer que Verdi é o número um, Puccini o número dois… ou o contrário. Mas ignorar o papel que Mozart desempenhou na nossa vida social e musical é simplesmente impossível”. E pediu ao público que apoiasse os jovens cantores, visivelmente nervosos. O público correspondeu.

Pia Novak. Concerto Semifinalistas. Imagem:Miguel Ribeiro Fernandes

Um programa inteiramente mozartiano

O programa foi uma viagem pela obra de Mozart – da abertura das Bodas de Fígaro até ao finale do mesmo título, passando por Die Zauberflöte, La finta giardiniera, Idomeneo, Don Giovanni e Così fan tutte. Uma escolha que mostrou a diversidade do universo mozartiano, da ópera séria à ópera bufa, da tragédia à comédia, do tenor ao soprano, do barítono à mezzo.

Constança Melo abriu com o “Der Hölle Rache” da Flauta Mágica – uma das árias mais exigentes do repertório de soprano de coloratura, com os seus sobreagudos impossíveis – e fechou o concerto com “In uomini, in soldati” do Così fan tutte, dois mundos completamente diferentes que mostrou com convicção e presença.

Zhenyu Wang. Concerto dos Semifinalistas. Imagem:Miguel Ribeiro Fernandes

Tanja Elisa Glinsner levou La finta giardiniera a Cascais com o “Va pure ad altri in braccio”, Pia Novak percorreu o drama do Idomeneo com o lamento de Ilia, e Ana Gvozdenović trouxe uma das cenas mais perturbadoras dessa mesma ópera. Nikolett Mráz e Zhenyu Wang mergulharam no universo do Don Giovanni, enquanto Junseok Hwang revisitou a serenata mais famosa de Mozart com um sorriso nos olhos.

Aleksandra Domashchuk cantou o “Porgi, amor” das Bodas de Fígaro – uma ária de rara delicadeza, em que a Condessa lamenta o amor perdido – com uma expressão corporal e vocal que foi muito além da técnica. Jamal Al Titi trouxe o Champanhe do Don Giovanni e depois regressou ao Così fan tutte, e Judit Subirana Muntada e Ihor Mostovoi completaram o programa com mais Mozart das Bodas de Fígaro.

Junseok Hwang e Constança Melo. Concerto Semifinalistas. Imagem:Miguel Ribeiro Fernandes

Momentos em que a alegria foi mais forte que os nervos

Mas foram os momentos coletivos que ficaram mais na memória. O dueto “Là ci darem la mano” do Don Giovanni, cantado por Junseok Hwang e Constança Melo, foi um dos pontos altos da noite – dois cantores que se conheciam há menos de 48 horas a partilhar um dueto de sedução mozartiana, perfeitamente visível nos seus gestos e expressões faciais, desde a sedução de Junseok Hwang até às atitudes esquivas de Constança Melo, com uma cumplicidade e um divertimento que surpreendeu o público. Via-se que estavam a gostar. Que se estavam a divertir genuinamente. A saída de “palco”, com Constança nos braços de Junseok Hwang despertou risos na plateia.

O terceto “Susanna, or via sortite” das Bodas de Fígaro – com Pia Novak, Ihor Mostovoi e Nikolett Mráz – foi outro momento em que a alegria de cantar superou claramente qualquer tensão residual da semana de competição. Três vozes a jogar entre si, com humor, com timing, com a leveza que Mozart exige e que tão raramente se encontra em contextos de pressão. A tensão entre Ihor Mostovoi e Nikolett Mráz, visível desde o primeiro segundo, foi complementada pelo percurso de Pia Novak pela sala.

Aleksandra Domashchuk. Concerto Semifinalistas. Imagem:Miguel Ribeiro Fernandes

E depois houve Aleksandra Domashchuk. A soprano ucraniana foi, ao longo de toda a noite, um exemplo de como a voz e a interpretação se podem fundir num mesmo gesto. No “Porgi, amor”, não havia separação entre o que cantava e o que sentia – ou pelo menos era isso que o público via e ouvia. A interligação entre voz e corpo, entre técnica e emoção, que é o ideal de qualquer intérprete, esteve ali, naquela sala histórica, a acontecer.  Mas a noite reservava ainda uma surpresa. Zhenyu Wang é jovem e esta foi a sua primeira experiência internacional. E ainda assim, no “Il mio tesoro” do Don Giovanni, havia nele uma delicadeza e uma sensibilidade que não se ensinam – ou que, quando existem, anunciam algo. Não é apenas uma voz a desenvolver-se: é um artista a descobrir-se.

Concerto Semifinalistas. Imagem:Miguel Ribeiro Fernandes

Uma noite que ficará na memória

O finale com o “Contessa, perdono” das Bodas de Fígaro reuniu todos os doze cantores em palco num momento que foi, provavelmente, o mais emocionante da noite. É uma cena de reconciliação – o Conde pede perdão à Condessa, e ela perdoa – mas Mozart transforma esse gesto simples em algo de rara beleza coletiva: todas as vozes se juntam, cada uma com a sua linha, e o resultado é maior do que a soma das partes. Naquela sala da Cidadela, com aquelas doze vozes que uma semana antes mal se conheciam, o efeito foi ainda mais poderoso. Via-se nos rostos, na postura, na forma como se olhavam uns para os outros: já não eram doze cantores a competir – eram doze músicos a fazer música juntos. Uma imagem que resume bem o que o Cascais Ópera, no fundo, sempre quis ser.

Concerto Semifinalistas. Imagem:Miguel Ribeiro Fernandes

Ao piano, Ana Filipa Luz, Ekaterina Byron e Michael Saks acompanharam os doze semifinalistas com a sensibilidade e a precisão que o repertório exige. E Aleksandar Nikolić, o encenador sérvio que preparou o concerto nas masterclasses dos dias anteriores, viu o seu trabalho concretizado numa noite em que os cantores mostraram claramente que não tinham apenas aprendido as notas – tinham aprendido a habitar a música. A sua atenção e cuidado foram claramente demonstradas não só pela prestação dos seus “pupilos”, mas também pela “exigência” dos mesmos em que, no final da apresentação, também ele subisse ao palco e recebesse o devido reconhecimento.

Cantar aqui, disse Sergei Leiferkus antes do concerto, pode fazer diferença. Nunca se sabe quem está na plateia. Esta noite, na Cidadela de Cascais, doze vozes cantaram Mozart sem rede – e a música fez o resto.

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Over the past three decades, primarily in London, Portugal and Amsterdam, Dr Jorge Balça
has developed a strong portfolio of work and a unique combination of skillsets – as a stage
director (of theatre, opera, and hybrid forms), a teacher and workshop leader, a presentation
skills, acting and creativity coach, and practice-based researcher. His work in all these
domains is distinguished by his commitment to and skill in making fantasy and invention
emerge from precise knowledge and training – and by his ability to inspire a similar alchemy
in his collaborators.

Classically trained as an actor and countertenor, he studied theatre directing in London and
Moscow, specialising in Shakespeare, techniques of adaptation, Meyerhold and commedia
dell’arte. Jorge also holds a PhD exploring the dramatic training of opera performers.
With a love for site-specific projects and collaborative forms, and an equal flair for comedy
and drama, his work is dramaturgically inventive, visually striking, and physically engaged.
He was the artistic director of Bloomsbury Opera and associate director of The Opera
Makers, both in London. In Portugal, he has recently directed L’Heure Espagnole and The
Turn of the Screw at Centro Cultural de Belém, and Don Giovanni and La Voix Humaine at
Festival de Ópera de Óbidos.

Jorge is committed to his work as a teacher, having taught at the Dutch National Opera
Academy, Morley College London, Universidade de Évora and other institutions. He
maintains an international coaching private practice and is the acting coach at the Neil
Semer Vocal Institute in Italy.

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