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Ópera: uma língua sem fronteiras

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O Concerto de Abertura do Cascais Ópera 2026 foi muito mais do que uma gala inaugural. Foi uma demonstração do poder universal da música – a capacidade de contar histórias, despertar emoções e criar imagens sem precisar de palavras que toda a gente entenda. Mesmo quem nunca ouviu falar de Tosca ou de Nabucco percebeu, nesta noite, exatamente o que se estava a passar.

Inês Thomas Almeida, que explicou as várias árias em que consistiram o concerto, deixou isso claro logo na introdução: o Cascais Ópera existe para ser um trampolim – uma plataforma que lança para o mundo os grandes talentos de amanhã. Mas o concerto de abertura foi também um lembrete do que a ópera é, na sua essência: uma arte que fala a língua das emoções. Uma linguagem que transcende línguas.

Sílvia Sequeira – soprano

Verdi abre a noite – e o coro desce as escadas

A Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, sob a direção do maestro Nikolay Lalov, abriu a noite – a música a falar por si, sem vozes, a preparar o que estava para vir. E o que veio foi inesquecível: no “Va, pensiero” do Nabucco de Verdi (1842), o Coro Lisboa Cantat – 60 vozes no total – fizeram a sua primeira aparição descendo as escadas do auditório em passo imponente, todos de preto. O efeito foi imediato: o lamento dos escravos hebreus, um dos momentos mais reconhecíveis de toda a literatura operática, ganhou com esta encenação uma dimensão quase ritualística. Uma entrada que ninguém na sala vai esquecer.

Coro Lisboa Cantat

Mascagni: dor que não precisa de tradução

A primeira parte encerrou com o “Voi lo sapete, o mamma” da Cavalleria Rusticana de Mascagni, interpretado pela soprano Sílvia Sequeira – uma das árias mais exigentes do repertório, em que uma mãe confessa o amor proibido do filho com uma carga de culpa e dor que não precisa de tradução. O Intermezzo orquestral que se seguiu, um dos momentos mais famosos de toda a ópera, é um exemplo perfeito do poder da música sem palavras, serviu de transição elegante para a segunda metade da noite.

John Pumphrey - tenor
John Pumphrey – tenor

Tosca: quando os cantores são também atores

Inês Thomas Almeida dedicou a sua segunda introdução à Tosca de Puccini, estreada em 1901. Descreveu-a como uma obra sobre desafios exteriores e, sobretudo, interiores – e identificou na música de Puccini uma qualidade particular: a capacidade de construir o clímax de forma gradual, subindo de patamar em patamar até uma explosão emocional que deixa o público sem fôlego. “Há um cheiro de alma ali”, disse, numa frase que ficou na memória. E acrescentou algo que resume bem o poder desta arte: “por momentos, ouvimos e vemos, e não sabemos se se trata das personagens ou de nós próprios”.

A história é simples na sua brutalidade: o pintor Cavaradossi, a soprano Floria Tosca e o barão Scarpia, chefe de polícia e vilão absoluto. Mas é precisamente nessa simplicidade que reside o gênio de Puccini – e a prova de que a ópera é uma linguagem que todos percebem, mesmo sem conhecer uma única palavra do libreto.

O tenor John Pumphrey abriu com “Recondita armonia” – a ária em que Cavaradossi pinta Maria Madalena enquanto pensa em Tosca -, dando lugar ao dueto tenso e carregado de ciúme “Mario! Mario! Mario!”, em que Sílvia Sequeira irrompeu em cena. Aqui, mais do que cantar, Sequeira atuou. A expressão corporal, o gesto, o olhar – tudo comunicava com uma precisão e uma intensidade que foram muito além da voz. Os dois solistas não foram apenas intérpretes; foram personagens vivos, capazes de contar uma história com o corpo inteiro.

Silvia Sequeira – soprano

Sílvia Sequeira ficou a sós para o “Vissi d’arte” – o monólogo em que Tosca interroga Deus sobre a injustiça do seu destino, uma das árias mais famosas de Puccini e um dos pontos mais altos da noite. Pumphrey respondeu com o dilacerante “E lucevan le stelle”, a despedida de Cavaradossi antes da execução, em que o desespero e a beleza andam de mãos dadas.

O clímax ficou para Sergei Leiferkus – cofundador e presidente do júri do Cascais Ópera, que desta vez pisou ele próprio o palco… e na pele do vilão – no “Tre sbirri, una carrozza… Te Deum”: o momento em que Scarpia dá ordens aos seus esbirros enquanto o coro entoa o Te Deum ao fundo. Foi aqui que o coro fez a sua segunda aparição, desta vez completamente transformado: capas brancas e velas acesas, uma imagem de espiritualidade luminosa em contraste direto com a escuridão obsessiva do vilão. O efeito foi de uma eficácia teatral notável – e mais uma prova de que a encenação de Henrique Gomes e Felipe Toledo soube usar o espaço e o visual ao serviço da emoção.

Champanhe para terminar 

O programa encerrou com o Final do II Acto de Die Fledermaus de Johann Strauss II – o “Im Feuerstrom der Reben”, o Coro do Champanhe, reunindo todos os solistas e o coro numa terceira e última aparição. Desta vez, sem solenidade nem velas: os elementos do coro entraram em modo completamente diferente, descontraído e teatral, a simular conversas entre si, a cumplicidade e a leveza a tomar o lugar da tensão dramática. Uma escolha certeira: depois da intensidade trágica da Tosca, a valsa e a celebração vieram lembrar que a ópera também é alegria – e que a música, independentemente da língua em que é cantada, é sempre capaz de criar uma história que todos entendem.

Este foi o espetáculo que abriu o Cascais Ópera 2026. Tudo está a postos. Os 40 cantores de 25 países que chegaram a Cascais para competir viram, naquela noite, o que os espera, e o que lhes é pedido. Não apenas vozes. Histórias.

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Over the past three decades, primarily in London, Portugal and Amsterdam, Dr Jorge Balça
has developed a strong portfolio of work and a unique combination of skillsets – as a stage
director (of theatre, opera, and hybrid forms), a teacher and workshop leader, a presentation
skills, acting and creativity coach, and practice-based researcher. His work in all these
domains is distinguished by his commitment to and skill in making fantasy and invention
emerge from precise knowledge and training – and by his ability to inspire a similar alchemy
in his collaborators.

Classically trained as an actor and countertenor, he studied theatre directing in London and
Moscow, specialising in Shakespeare, techniques of adaptation, Meyerhold and commedia
dell’arte. Jorge also holds a PhD exploring the dramatic training of opera performers.
With a love for site-specific projects and collaborative forms, and an equal flair for comedy
and drama, his work is dramaturgically inventive, visually striking, and physically engaged.
He was the artistic director of Bloomsbury Opera and associate director of The Opera
Makers, both in London. In Portugal, he has recently directed L’Heure Espagnole and The
Turn of the Screw at Centro Cultural de Belém, and Don Giovanni and La Voix Humaine at
Festival de Ópera de Óbidos.

Jorge is committed to his work as a teacher, having taught at the Dutch National Opera
Academy, Morley College London, Universidade de Évora and other institutions. He
maintains an international coaching private practice and is the acting coach at the Neil
Semer Vocal Institute in Italy.

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Cascais ópera

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director (of theatre, opera, and hybrid forms), a teacher and workshop leader, a presentation
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Classically trained as an actor and countertenor, he studied theatre directing in London and
Moscow, specialising in Shakespeare, techniques of adaptation, Meyerhold and commedia
dell’arte. Jorge also holds a PhD exploring the dramatic training of opera performers.
With a love for site-specific projects and collaborative forms, and an equal flair for comedy
and drama, his work is dramaturgically inventive, visually striking, and physically engaged.
He was the artistic director of Bloomsbury Opera and associate director of The Opera
Makers, both in London. In Portugal, he has recently directed L’Heure Espagnole and The
Turn of the Screw at Centro Cultural de Belém, and Don Giovanni and La Voix Humaine at
Festival de Ópera de Óbidos.

Jorge is committed to his work as a teacher, having taught at the Dutch National Opera
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