Jorge Balça, encenador e professor de interpretação no Cascais Ópera 2026
Jorge Balça faz uma distinção que parece simples e não é. Um cantor de ópera, diz, é alguém que canta música de ópera. Um intérprete de ópera faz isso, mas com o corpo, com a personagem, com o teatro. E é exclusivamente com o segundo que trabalha. “Enquanto encenador, não tenho utilidade absolutamente nenhuma para uma voz sozinha. Não me serve de nada”.
A afirmação é provocadora, mas a lógica é impecável. “Se a voz é muito bonita, posso ouvir gravações em casa no meu estéreo com high fidelity… às vezes com melhor qualidade sonora do que num teatro. Mas é só uma voz”. O que Jorge Balça procura – e o que tenta transmitir nas suas masterclasses no Cascais Ópera – é outra coisa: a personagem viva, a história contada, o corpo em cena.
A voz que nasce do corpo
O conceito central do trabalho de Balça é o de embodied voice – a voz incorporada. “Infelizmente, às vezes vemos cantores a cantar com vozes que não estão no corpo, que são disembodied voices”. O objetivo das suas masterclasses, realizadas durante o Cascais Ópera, foi precisamente o inverso: devolver a voz ao corpo, tratá-la como um fenómeno físico e não apenas sonoro, e usar o corpo como veículo expressivo da dramaturgia.
“Conseguimos vislumbrar um bocadinho da personagem na maneira como o corpo reage com a voz”. É essa reação, esse cruzamento entre o que se ouve e o que se vê, que, segundo ele, é a essência da performance operática. “Às vezes é nas imperfeições vocais que a personagem se pode encontrar. Eu não acredito que uma personagem possa viver se não houver os dois elementos”.
Três técnicas para um artista completo
Para Jorge Balça, a formação de um cantor de ópera assenta numa tríade: técnica vocal, técnica corporal e técnica dramática. E as três têm de ser trabalhadas em simultâneo, idealmente desde o início. “É preciso ter muitas aulas de teatro e ter um regime de trabalho físico. Seja yoga, pilates, ginásio… algo que trabalhe não só força, mas elasticidade, para que tenhas uma paleta igualmente rica no corpo como tens na voz”.
Um dos conselhos mais inesperados que dá aos seus alunos é ir fazer aulas de clown. “É extremamente desconfortável. Trabalha o ridículo, o nosso ridículo pessoal, e depois transforma-o em performativo. Ter essa capacidade e essa vontade com o ridículo é muito importante”. A lógica é a mesma de sempre: o desconforto é o lugar onde se aprende.
E contra o argumento de que o trabalho corporal pode prejudicar a voz, Balça é categórico: “Não estamos a puxar em direções opostas. Quando o corpo e a voz estão bem integrados, com um alicerce dramatúrgico, todo esse trabalho vai ajudar a voz, e vai torná-la mais segura”.
Contar a história é tudo
No fundo, diz Jorge Balça, a ópera é simples. “A obra é muito simples, é contar uma história. Por acaso, as palavras estão em música”. É desta simplicidade que parte toda a sua abordagem: não há técnica vocal nem presença cénica que valha se não estiver ao serviço de uma história que chega ao público.
Aos candidatos do Cascais Ópera deixou dois conselhos distintos consoante o momento da carreira. Para os que estão a começar: “Atirem-se de cabeça. Não tenham medo dos erros. Se vamos falhar, vamos falhar espetacularmente, e que isso seja entusiasmante”. Para os candidatos em competição: “Tenham confiança de que a voz vai estar no sítio, de que o trabalho técnico foi feito. Parem de se preocupar com a técnica… e divirtam-se. Contem a história. Olhem para o público e conectem”.
Tell the story. É esta a frase com que encerra. E é também, no fundo, a razão pela qual a ópera existe.