Há dias no Cascais Ópera em que não há competição. Não há júri a avaliar, não há eliminatórias, não há nomes a ser chamados. Há apenas professores e alunos – ou melhor: há mestres e intérpretes em formação, frente a frente, numa sala, a trabalhar o que a prova revelou e o que ainda pode crescer.
Há dias no Cascais Ópera em que o foco se desloca da competição para a aprendizagem. Não há classificações nem decisões do júri. Há tempo para observar, experimentar, aprofundar e crescer.
Segunda-feira foi um desses dias. Enquanto os semifinalistas prosseguiam a sua preparação artística, os restantes participantes mergulharam num intenso programa de masterclasses com alguns dos mais prestigiados mentores desta edição. Foi uma oportunidade para trabalhar aspetos técnicos e interpretativos, receber orientação personalizada e explorar novas perspetivas sobre a arte de cantar.
Ao longo do dia, em diferentes espaços de Cascais, ouviram-se árias, corrigiram-se detalhes, experimentaram-se novas abordagens e partilharam-se experiências. Foram horas de trabalho intenso, mas também de descoberta, inspiração e encontro entre artistas de diferentes países, culturas e percursos.
Porque no Cascais Ópera, cada etapa conta. E muitas vezes, é nestes momentos de partilha e aperfeiçoamento que começam os próximos capítulos de uma carreira artística.
Cinco mestres, cinco salas, uma mesma intenção

Juliane Banse recebeu os seus alunos no Centro Cultural de Cascais. Soprano alemã de projeção internacional, professora no Mozarteum de Salzburgo e diretora artística do Festival de Marvão, Banse tem uma carreira que atravessa do barroco a Strauss, do Lied à grande ópera. Numa masterclass, essa versatilidade transforma-se em escuta: ouve o que está na voz, mas também o que está por trás da voz: a intenção, a história, o medo. “O canto é como um microcosmos”, disse. “Não se trata apenas de mostrar a voz – é uma disciplina mental que vai muito além disso”. Sobre o que estas masterclasses representam para quem não avançou na competição, foi direta: “A ideia é transformar a frustração de já não estar na competição em algo construtivo e positivo. Não estamos aqui para dizer que não são suficientemente bons. Estamos aqui para os ajudar a levar algo para casa que lhes seja útil no trabalho que vão continuar a fazer”.

Na Conservatória de Música de Cascais, Liliana Bizineche trabalhou com os seus alunos com a autoridade de quem conhece o percurso de ambos os lados. Vencedora de prémios em dez concursos internacionais – incluindo o 1.º Prémio da Fundação Calouste Gulbenkian -, iniciou a carreira internacional no Teatro Nacional de São Carlos e estudou com Ileana Cotrubas, Elizabeth Schwarzkopf e Regina Resnik. Professora na Universidade de Évora, sabe o que é chegar a uma sala de concurso com tudo o que se tem, e o que fazer com o que ficou por dizer.

Sergei Leiferkus – barítono, co-fundador do Cascais Ópera e presidente do júri que, dois dias antes, anunciara os semifinalistas – recebeu os candidatos no Museu Condes de Castro Guimarães. É um dos grandes barítonos da segunda metade do século XX, com uma carreira construída no Covent Garden, no Met, na Scala e em Salzburgo. Mas nas masterclasses, o que importa não é o palco de onde se vem, é o que se consegue transmitir numa conversa direta, honesta, entre quem sabe e quem quer saber.

Na Casa das Histórias Paula Rego, María Bayo trabalhou canto com um grupo de candidatos num espaço que é, por si só, uma declaração artística. Soprano espanhola com mais de 70 papéis no repertório, do barroco à zarzuela, premiada com o Prémio Nacional de Música e a Ordre des Arts et des Lettres, Bayo é uma das vozes ibéricas de maior projeção internacional. A sua masterclass foi também uma aula sobre identidade, sobre como uma voz encontra o seu lugar no mundo.

Na mesma Casa das Histórias, Jorge Balça dedicou-se à interpretação: o território onde a voz encontra o corpo, e onde o cantor se torna ator. Encenador e professor com décadas de trabalho entre Lisboa, Londres e Amesterdão, Balça tem um doutoramento sobre a formação dramática de cantores de ópera. O que ensina não é técnica vocal: é presença. É a diferença entre estar em palco e habitar um palco.
O que fica depois de uma masterclass
As masterclasses são uma das dimensões centrais do Cascais Ópera. Mais do que um concurso, o projeto pretende ser uma plataforma de formação e desenvolvimento artístico, proporcionando a todos os participantes momentos de aprendizagem que podem marcar o seu percurso futuro.
Porque uma masterclasse faz algo que poucas experiências conseguem: coloca um jovem cantor diante de alguém que já percorreu o caminho, e que está disposto a dizer, com precisão, com franqueza e com respeito, o que está a funcionar e o que precisa de mudar.
É formação personalizada. É atenção individual. É o tipo de encontro que, muitas vezes, se recorda durante anos, a frase que ficou, o exercício que abriu qualquer coisa, o olhar de um mestre que disse “sim, é assim” ou “não, tenta de novo”.
O Cascais Ópera foi concebido como um trampolim. E ontem ficou claro que o trampolim não é apenas o palco da final – são também estas salas mais pequenas, estas conversas mais íntimas, este trabalho que não tem público, mas que tem, talvez, o impacto mais duradouro de toda a semana.
As vozes continuam.